
António bento fez música com serrote
Violoncelista oferece “lâmina sonora” à ESART
Data
02/02/2026
Natural de Loulé, António Bento começou a tocar violoncelo no final do secundário, seguindo-se três anos no Conservatório de Faro. Terminados os estudos na Escola Superior de Artes Aplicadas (ESART), onde concluiu a licenciatura e o mestrado, o violoncelista muda-se para o Porto para tocar em orquestras, regressando uma vez por semana ao Politécnico de Castelo Branco (IPCB), já enquanto professor assistente.
Como havia que preencher o tempo livre, o então músico freelance, que a partir daí abandona os ambientes mais formais do metier musical, estreia-se nas ruas da invicta, espaço “que mostra bem como o mundo funciona e as pessoas se comportam”. Tirando proveito da curiosidade do público, o busker aprende a fazer música com quase tudo, começando por apostar na exploração sonora de frutas e legumes. “Fui vendo o que os colegas faziam e como melhorar a minha atuação, para ser mais cativante. A certa altura, também já eram os narizes dos cães das pessoas, as bicicletas e cadeiras de rodas de bebé.”
Atento a outros objetos e experimentalistas, no YouTube António Bento descobre uma variante da célebre lâmina sonora, “com um formato que lhe permite vibrar melhor.” Ainda em 2022, encomenda a um artesão francês o exemplar que o acompanharia na rua durante quase um ano. Não existindo uma escola, “cada pessoa vai encontrar a sua forma de segurar na pega, de dobrar a lâmina e tocar com o arco”, explica. Da posição certa à técnica, “tive um mês para me adaptar”. A principal dificuldade é domar a chapa grossa. “Com a ajuda do braço e das pernas, temos que encontrar a curvatura para que possa soar.”
As primeiras folhas sonoras, já sem os clássicos dentes do serrote e com a pega modificada, surgiam no início do século XX, tendo até hoje cativado virtuosos como Emmanuel Brun, encantado Marlene Dietrich, sido protagonistas no filme Delicatessen e parte integrante da banda sonora de One Flew Over the Cuckoo’s Nest (Voando sobre um ninho de cucos).
Dominada a afinação do idiofone cujo som é similar ao do teremim, “é mágico tocar um instrumento tão diferente do violoncelo, e gratificante poder mostrar ao público algo que este nunca viu”, confessa o antigo artista de rua. Travada a pega entre os joelhos, de forma que a lâmina permaneça na vertical e mantenha a tensão, a serra é arqueada longitudinalmente. O tom produz-se ao ajustar a tensão e curvatura da serra, friccionada na borda com um arco ou uma baqueta.
Quanto a repertório adaptado para serrote, que já tem o seu lugar nos palcos a solo ou acompanhado por orquestras, e segundo a prática de António Bento, o público calllejero é mais atraído por temas conhecidos, improvisações e brincadeiras com quem passa. Nas preferências sobressaem Frank Sinatra, Elvis Presley ou Edith Piaf, a que se juntam as bandas sonoras das décadas de 1960 e 1970 como Moon River, canção de Henry Mancini e Johnny Mercer interpretada por Audrey Hepburn no filme Breakfast at Tiffany’s.
Numa visita recente à ESART, o jovem de 32 anos fez uma demonstração para a classe de violoncelo, tendo alguns dos alunos e alunas podido experimentar o delicado equilíbrio que permite extrair sons do instrumento feito por medida e que também pode ser percutido com os dedos. “Apesar de já não estar ligado ao meio musical, sinto-me muito apegado à escola por aquilo que me deu, e ao professor Miguel Rocha que me acompanhou como um pai”, justifica António Bento, que presenteou o IPCB com sua companheira de rua, oferecendo aos colegas “a experiência de tocar um instrumento parecido, mas que permite desenvolver outro tipo de competências”.
Num dos cantos da folha, junto à pega, sobressai a assinatura de Alexis Péna, o luthier referência internacional em serras musicais e lâminas sonoras (informação adicional em francês e inglês). O modelo em forma de violino e com dois efes na pega que lembram as aberturas no tampo superior de um violoncelo, destaca-se pelo aspeto trapezoidal do braço, pelo tamanho que permite tocar em até quatro oitavas, e pela alavanca de inflexão, a pega removível e ergonómica que permite precisão nas notas facilitando a execução de vibratos e tremolos. A serra musical eletroacústica desenvolvida pelo entusiasta francês, com clientes como o Cirque du Soleil, inclui ainda um microfone piezoelétrico e um conector que permite a ligação a um amplificador. “Apesar de todos os serrotes serem capazes de produzir música, este fá-lo de uma forma muito superior”, garante António Bento. A musicalidade destes dependerá sempre da qualidade do aço, bem como da espessura, dureza, dimensões e direção do laminado.
Outra obra, oferecida pelo construtor, acompanha a doação da lâmina cujo comprimento é sempre ajustado à altura do executante: La Lame Sonore: Étude Méthodique. Jacques Keller, criador da lame sonore e de um cabo especial, escreveu o único manual que se conhece sobre o instrumento. Para além das explicações técnicas e das peças originais de Kœchlin, Canteloube, Honegger, Duboscq, Sauguet e Clément Jacob, o livro inclui recreações de cantigas e melodias religiosas e populares, bem como marchas, óperas e peças clássicas de compositores do século XVII ao século XX (Corelli, Haendel, Duparc, Rameau, Satie, Schumann, Wagner, Saint-Aulaire, Fauré, Borchard).
Excerto de Edelweiss, composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein para o filme The Sound of Music (Música no Coração, na versão portuguesa)












